28 de março de 2010

é isso aí índio véio!


Era dia 9 de dezembro de 1997, aniversário da Ale, ato do Fora FHC no metrô de São Leopoldo, achei que tinha conhecido o Fábio naquele dia, voltando de carona para sede da UENH. Depois lembrei que ele tinha passado na minha sala de aula em 95, dava pra reconhecer aquele alemão, vendeu a minha primeira carteira da UBES, entregou jornais da entidade e falou da luta pela vinda do metrô para Novo Hamburgo.
O Fábio dificilmente passou em branco na vida de alguém. Nem sei como me referir a uma pessoa que me apresentou de perto a obra do Chico, que me ensinou a gostar de Belchior com 15 anos de idade, que me fez amar MPB com aquele CD da Casa de Samba Volume I. Eu ouvia, ouvia, ouvia e fui me descobrir apaixonada por Noel Rosa. Conheci Gonzaguinha e Zé Ramalho. Do Zé, nunca vou esquecer quando ele ouvia alto dentro do carro “enquanto o vento sacode a cabeleira/ a trança toda vermelha”.
Bah! O Alemão sabia juntar a galera, fosse no antigo Peppers do Calçadão ou subindo o morro dos Picos com o carro cheio de gente para ver a cidade iluminada lá de cima. Fosse para fazer pichações do partido. Era uma luta e uma festa. Aprendi a fazer pichações em alto nível, primeiro a gente passava para escolher o muro e dava um fundo com cal amarela, depois voltávamos para fazer as letras em vermelho e preto. Fora Yankes! Fora FHC! Viva o Socialismo! PCdoB.
Nos sábados pela manhã nosso ponto de encontro era ao lado do coreto na Praça do Imigrante, era lá que rolava um chimarrão, a banca de livros, muitos jornais para distribuir. Foi lá que comemoramos juntos quando o Rômulo e o Cristiano passaram na UFRGS, era lá que a gente batia boca com as outras forças políticas. Quando o partido tinha carro e som ao mesmo tempo o Fábio dava voltas nas quadras do centro falando de política para reforçar a banca.
Um apaixonado pelo Partido Comunista do Brasil, sempre colocou o partido antes de tudo, nunca conheci alguém que amou tanto a cidade de Novo Hamburgo. Ele ficou brabo comigo quando me mudei pro Rio de Janeiro, acho que ficou feliz quando eu voltei.
A gente chama de companheiro aquele que está sempre ao nosso lado, e ele esteve muitas vezes, na UENH, na UJS, quando ganhamos o DCE, quando fizemos as colagens pelo aumento ZERO das mensalidades, quando ganhamos o CONSU, e esteve lá nos tempos difíceis, nas derrotas. Dividimos as dificuldades e as horas boas em incontáveis mesas de bar.
O Fábio era uma voz de comando, ele nos convencia com facilidade, em 2007 insistiu que devíamos bloquear a BR116, sentido interior capital, para reivindicar a vinda do metrô. O detalhe: éramos um grupo com de pouco mais de 25 pessoas, uma brasília com um som em cima, uma faixa da UAC e uma bandeira da UNE. Acabamos topando, geramos um engarrafamento de 6km e problemas com a Polícia Federal, mas o bom é que o metrô já ta chegando.
Ouvi do Alemão quase todo o repertório de piadas, tantos trocadilhos de beira de estrada que se renovavam cada vez que ele voltava de viagem. Aprendi tanto sobre política, sobre partido, sobre socialismo. Tive que frequentar as Bancas da Pedro Adams nas madrugadas depois das colagens, eu olhava com cara feia, mas os guris adoravam, o Fábio gostava em especial do bolo de carne (risos). Eu aprendi muito sobre o ser humano.
E agora? Agora o Fábio, aquele que tinha uma urgência de viver, não está mais aqui e as lembranças ficam passando na minha cabeça como um filme. Ainda ouço a sua voz nitidamente. Uma pena, uma tristeza não poder mais conviver com essa figura, que faz falta para a família, para a segunda família dele, que eram os amigos do partido, que faz falta para o nosso país. Vida longa a tudo que ele ensinou, a tudo que ele acreditava.
E isso aí índio véio! Obrigada por tudo.

4 comentários:

Tiago Morbach disse...

Bah, Cris.
As tuas palavras traduzem muito do que o Fábio era. Impossível não lembrar de quando paramos a BR ou das vezes em que o Fábio me arrastou para as bancas, quando conversávamos amenidades e ele citava alguma letra de MPB. Abro um sorriso e deixo cair uma lágrima...
Não lembro exatamente quando o conheci, mas ele marcou. Poucas pessoas nos compreendiam tanto, nos respeitavam tanto. E nós o compreendíamos e o respeitávamos. Daqui pra frente, estaremos muito mais tristes, mas também mais convictos!

PS: não deixe esse blog, ele é a "janela" por onde respira aquele que está numa cela abafada, como definiu Mário Quintana.

Marinha disse...

Vida longa à alegria e à garra do Fábio!
Bjs, Cris

Manu disse...

LInda homenagem cris. Para quem sabe ter amigos, como o fabio sabia.

soares disse...

Difícil falar mais depois de tudo o que foi dito, só apenas reafirmar a simplicidade de um cara que cativava a todos do mesmo modo em que se fazia respeitar pela sua seriedade com suas convicções...
Endurecer sem perder a ternura. Ninguém traduzia esta frase tão bem como o fábio.
Meu professor, meu exemplo, meu grande amigo...
Quando vc Cris me falou que alguém no velório dele perguntou se ele era tão reconhecido em vida e que prontamente vc respondeu "sim", fiquei pensando sobre. Talvez nem ele sabia o quanto ele era uma pessoa queria, mas com certeza era!!!
Ele fará muita falta em nossas vidas!!!